Mamar ibne Raxide (), cujo nome completo era Abu Urua Mamar ibne Raxide Albáceri Açanani (; 714/715–770), foi um tradicionalista, jurista e estudioso muçulmano, considerado uma das principais autoridades do hádice de sua geração. Natural de Baçorá e maula dos azeditas, estudou com numerosos eruditos durante viagens por diferentes centros do mundo islâmico, destacando-se entre seus mestres Catada ibne Diama, Ibne Xiabe Azuri, Anre ibne Dinar e . Estabeleceu-se posteriormente no Iêmem, onde desenvolveu grande parte de sua atividade e formou discípulos como Abede Arrazaque Açanani.

Reconhecido como hafiz e mujtahid, Mamar teve papel importante na transmissão e preservação escrita das tradições das primeiras gerações muçulmanas. É considerado o primeiro estudioso a reunir sistematicamente hádices no Iêmen e destacou-se como transmissor de Ibne Xiabe Azuri e da Ṣaḥīfat Hammām ibn Munabbih, uma das antigas compilações de hádices atribuídas a . Sua atividade abrangeu ainda o fiqh, a exegese do Alcorão, a sira e a magazi, e suas transmissões exerceram influência importante sobre a produção de seu discípulo Abede Arrazaque.

Sua principal obra preservada é o al-Jāmiʿ, coleção de tradições incorporada ao al-Muṣannaf de Abede Arrazaque e considerada uma das mais antigas coleções de hádice que chegaram aos tempos modernos. Também lhe é atribuído o Kitāb al-Maghāzī, dedicado à vida e às campanhas de Maomé, cujo material foi parcialmente preservado por transmissores posteriores. Por meio de suas próprias compilações e da ampla circulação de suas tradições entre estudiosos como Sufiane Atauri, Xuba ibne Alhajaje, Sufiane ibne Uiaina e Abedalá ibne Almubaraque, Mamar tornou-se um importante elo entre as primeiras gerações de transmissores e as grandes coleções de hádice dos séculos posteriores.

Vida

Mamar ibne Raxide nasceu em Baçorá em 95 A.H. (714) ou 96 A.H. (715). Seu nome completo era Abu Urua Mamar ibne Raxide Albáceri Açanani. Era maula de um membro dos azeditas, razão pela qual também era conhecido pela nisba Alazedi, enquanto Açanani derivava de sua posterior fixação em Saná, no Iêmem. Seu irmão, , também transmitiu hádices, embora não fosse considerado um transmissor confiável. Mamar afirmou ter iniciado sua formação aos catorze anos com Catada ibne Diama, depois de participar da oração fúnebre de Haçane Albáceri. Catada tornou-se seu principal mestre, e Mamar relatava ter memorizado de maneira duradoura tudo aquilo que ouvia dele. Suas viagens comerciais contribuíram para ampliar sua formação. Em Medina, onde esteve por razões comerciais, encontrou Ibne Xiabe Azuri e Anre ibne Dinar, dos quais recebeu autorização para transmitir tradições; no Iêmen, estudou com ; em Iamama, com ; e em Cufa, com Alamaxe e Abu Isaque Açabii, além de manter contato com outros estudiosos. Viajou também para Damasco, Hómece e Coração, aproveitando suas deslocações comerciais para procurar estudiosos de diferentes especialidades e orientações. Entre aqueles dos quais recebeu conhecimento encontravam-se tradicionalistas, juristas, exegetas, recitadores do Alcorão, historiadores e ascetas, incluindo estudiosos considerados xiitas ou mutazilitas.

Alguns de seus próprios mestres, entre eles Sufiane Atauri, Iáia ibne Abi Catir, Abu Isaque Açabii, Aiube Açaquetiani e Anre ibne Dinar, transmitiram tradições por sua autoridade. Entre outros estudiosos que receberam hádices de Mamar estiveram , , Ibne Juraije, , Xuba ibne Alhajaje, Sufiane ibne Uiaina e Abedalá ibne Almubaraque. Seus discípulos mais próximos foram Abede Arrazaque Açanani, que teria escrito cerca de 10 mil hádices transmitidos por ele, e , cádi de Saná. Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina, Xuba ibne Alhajaje, Abedalá ibne Almubaraque e outros estudiosos chegaram a viajar ao Iêmen para receber tradições de Mamar. Os iemenitas teriam procurado assegurar sua permanência na região incentivando seu casamento com uma mulher local. Mamar acabou estabelecendo-se no Iêmen, onde permaneceu pelo restante da vida. Descrito como piedoso, confiável, sincero e disposto a dizer o que considerava verdadeiro, morreu no Iêmen em Ramadã de 153 A.H. (setembro de 770). Também são transmitidos os anos de 152 (769) e 154 A.H. (771) para sua morte.

Hádice e jurisprudência

A experiência comercial de Mamar e os contatos que estabeleceu com estudiosos das regiões pelas quais viajou contribuíram para sua formação tanto no hádice quanto no fiqh. Sua atividade jurídica, como era comum entre os estudiosos de seu período, baseava-se amplamente nas tradições: recorria a elas para resolver questões jurídicas, realizava escolhas entre relatos divergentes e admitia o emprego do raciocínio na interpretação das tradições. Por esse motivo, foi considerado um jurista mujtahid e incluído entre aqueles que emitiam pareceres jurídicos sem se limitarem à imitação das opiniões de outros estudiosos. Mamar dedicou especial atenção à compilação escrita dos hádices, conciliando a memorização com o registro por escrito. É considerado o primeiro estudioso a compilar obras e a reunir sistematicamente hádices no Iêmen. Possuía um aposento destinado à redação de seus trabalhos e demonstrava particular interesse pela conservação de materiais escritos anteriores. Segundo um relato, depois de emprestar a alguém um pequeno caderno de duas páginas sobre as campanhas de Maomé, recebido de , e não recuperá-lo, decidiu não voltar a emprestar seus livros.

Reconhecido como hafiz do hádice, Mamar foi considerado uma das maiores autoridades de seu tempo e um dos transmissores mais confiáveis de Ibne Xiabe Azuri. Sua própria confiabilidade não foi seriamente contestada, embora algumas de suas transmissões provenientes de determinados mestres tenham recebido críticas. Iáia ibne Maine considerava fracas as tradições que Mamar transmitia de , enquanto Maleque ibne Anas, apesar de estimá-lo, criticava algumas de suas transmissões exegéticas provenientes de Catada. Adaabi atribuiu essa crítica ao caráter descontínuo de parte dessas tradições e afirmou ter deixado de utilizar como prova relatos nos quais Mamar contrariava transmissores considerados mais confiáveis. Abu Hatim Arrazi observou ainda que as tradições transmitidas por Mamar durante uma visita a Baçorá continham erros porque seus livros não estavam consigo, embora continuasse a considerá-lo um transmissor aceitável. A importância de Mamar para a história da transmissão escrita do hádice está particularmente relacionada ao material que recebeu de gerações anteriores. Desempenhou papel fundamental na transmissão da Ṣaḥīfat Hammām ibn Munabbih, compilação de 138 hádices que Hamame ibne Munabi havia registrado a partir de Abu Huraira. Mamar recebeu trinta dessas tradições diretamente por samāʿ e as restantes mediante apresentação e leitura. O conteúdo da compilação foi posteriormente preservado no Musnad de Amade ibne Hambal e no Muṣannaf de Abede Arrazaque Açanani, constituindo um testemunho importante da circulação escrita de tradições entre as primeiras gerações de estudiosos.

Mamar transmitiu igualmente outros materiais escritos anteriores. Entre eles estavam uma compilação, recebida através de Catada, das tradições de Jabir ibne Abedalá sobre os ritos da peregrinação; uma compilação de Alamaxe; outra de Mujaíde ibne Jabre, recebida através do filho deste; e documentos transmitidos por , incluindo a carta que Maomé teria enviado a Almucauquis. Embora a maior parte de suas tradições tenha sido recebida por samāʿ, Mamar também empregou outros métodos de transmissão, como apresentação, leitura e, provavelmente em alguns casos, wijāda. Sua contribuição não se limitou ao hádice. Foram preservadas informações de sira e magazi transmitidas por ele de Ibne Xiabe Azuri, materiais exegéticos recebidos de Catada e numerosas opiniões jurídicas próprias. O tafsir de seu discípulo Abede Arrazaque Açanani baseia-se em grande medida nas transmissões de Mamar. Os princípios que formulou acerca das viagens em busca de conhecimento, do registro escrito, da organização das coleções, da conduta na transmissão e de outros aspectos das ciências do hádice também foram retomados por estudiosos posteriores.

Obras

A principal obra preservada de Mamar é o al-Jāmiʿ, uma das mais antigas coleções de hádice que chegaram aos tempos modernos. Reúne tradições sobre numerosos assuntos, distribuídas por grande número de capítulos. Sua antiguidade fez com que servisse como uma das fontes para o desenvolvimento das coleções posteriores e para a organização temática dos hádices. Embora Abede Arrazaque Açanani já transmitisse extensamente material de seu mestre no al-Muṣannaf, incorporou integralmente o al-Jāmiʿ de Mamar ao final de sua própria obra. Foi dessa forma que a compilação chegou aos tempos modernos. Também é atribuído a Mamar o Kitāb al-Maghāzī, dedicado às campanhas e à vida de Maomé. Não se sabe se a obra sobreviveu como compilação independente, mas Abede Arrazaque, ao transmitir tradições de Mamar relacionadas sobretudo às campanhas de Maomé, faz referência a uma obra de seu mestre. Ibne Anadim também registra Mamar entre os autores de sira e magazi dos quais Abede Arrazaque recebeu material. Além disso, uma parte considerável das transmissões de Mamar não contidas no al-Jāmiʿ pode ser recuperada por meio do al-Muṣannaf de Abede Arrazaque e das coleções de outros tradicionalistas posteriores.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Azeditas Categoria:Naturais de Baçorá