Ibne Uabe (), cujo nome completo era Abu Maomé Abedalá ibne Uabe ibne Muslim Alfiri Almisri (; –), foi um tradicionalista, jurista, exegeta e estudioso das leituras do Alcorão muçulmano do Egito. Maula dos coraixitas, estudou com cerca de quatrocentos mestres, entre os quais Maleque ibne Anas, , Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina e Ibne Juraije, tornando-se uma das principais autoridades religiosas egípcias de sua geração.
Ibne Uabe destacou-se particularmente como discípulo de Maleque, com quem manteve contato durante décadas, e desempenhou importante papel na transmissão e difusão de seus ensinamentos, tornando-se uma das principais figuras da primeira geração do maliquismo. Ao mesmo tempo, sua formação abrangente e seu vasto repertório de tradições deram-lhe uma posição intelectual própria, sendo reconhecido como autoridade no hádice, fiqh, exegese, leituras corânicas e história. Sua confiabilidade como tradicionalista foi reconhecida por estudiosos como Iáia ibne Maine, Amade ibne Hambal, Anaçai e Adaabi, e entre aqueles que transmitiram por sua autoridade estiveram Abederramão ibne Mádi e Sanune ibne Saíde.
Autor prolífico, Ibne Uabe teria reunido aproximadamente 20 mil hádices em suas obras e composto numerosos trabalhos relacionados ao hádice, jurisprudência e exegese. Sua principal obra parcialmente preservada é o al-Jāmiʿ fī al-ḥadīth, da qual subsistem antigos fragmentos manuscritos, além do Tafsīr al-Qurʾān e do Kitāb al-Qadar wa-mā warada fī dhālika min al-āthār. Parte considerável de sua produção perdeu-se, mas suas tradições e opiniões jurídicas foram preservadas por seus discípulos e por obras posteriores, contribuindo para a transmissão da tradição jurídica de Maleque e para o desenvolvimento inicial da escola maliquita.
Vida
Ibne Uabe nasceu no Cairo em 125 A.H. (743). Seu nome completo era Abu Maomé Abedalá ibne Uabe ibne Muslim Alfiri Almisri. Era maula dos coraixitas, por sua vinculação aos descendentes de Fir ibne Maleque, dos quais derivava sua nisba Alfiri, e começou seus estudos por volta dos dezessete anos. Estudou com cerca de quatrocentos mestres, entre os quais Maleque ibne Anas, , Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina, Ibne Juraije, Haiua ibne Xurai, Ibne Laia e . Estudou também as leituras do Alcorão com e teve contato com cerca de vinte discípulos de Ibne Xiabe Azuri, além de outros estudiosos da geração dos tabis. Entre seus mestres, Maleque ibne Anas e Alaite ibne Sade exerceram influência particularmente importante. Ibne Uabe conheceu Maleque em 144 A.H. (762), durante uma peregrinação a Meca, e manteve contato com ele até sua morte. Segundo diferentes relatos, realizou a peregrinação vinte e quatro ou trinta e seis vezes e, em cada ocasião, encontrou-se com Maleque. Costumava submeter a Maleque e Laite os hádices que recebia e atribuía grande importância à avaliação de ambos. A relação com Maleque tornou-se suficientemente estreita para que este, apesar de não ter o costume de fazê-lo, lhe escrevesse solicitando sua opinião sobre questões de conhecimento religioso.
Ibne Uabe tornou-se um dos principais conhecedores dos ensinamentos de Maleque. Após a morte deste, quando surgiam divergências acerca de suas opiniões, estudiosos de Medina escreviam a Ibne Uabe ou aguardavam sua chegada à cidade para consultá-lo. Alguns consideravam seu conhecimento do fiqh superior ao de , que desempenhou papel central na sistematização da escola maliquita, enquanto seu discípulo o considerava, entre os discípulos de Maleque, aquele que melhor conhecia a suna e as tradições. Entre os estudiosos que transmitiram hádices por sua autoridade estiveram Abederramão ibne Mádi, Asbague ibne Faraje, , , , e Sanune ibne Saíde. Seus próprios mestres Laite ibne Sade e Maleque ibne Anas também transmitiram hádices por sua autoridade. A procura por suas aulas tornou-se tão intensa que, em certa ocasião, Ibne Uabe ficou ferido em meio a uma aglomeração de estudantes e jurou deixar de transmitir hádices, embora posteriormente tenha realizado uma expiação e retomado o ensino. Conhecido pela piedade, teria dividido grande parte de sua vida entre o ensino, a peregrinação e a participação em atividades militares nos ribates. Recusou o cargo de cádi que lhe foi oferecido. Morreu no Cairo em 25 de Xabã de 197 A.H. (1 de maio de 813), embora também tenham sido transmitidas as datas de 195 e 196 A.H. para sua morte.
Hádice e jurisprudência
Ibne Uabe foi considerado uma das principais autoridades de seu tempo nas leituras corânicas, exegese, hádice, fiqh e história, recebendo a designação dīwān al-ʿilm ("repositório do conhecimento"). Dedicou particular atenção à reunião dos hádices transmitidos no Egito e no Hejaz, compilando e memorizando tanto tradições com cadeias de transmissão completas quanto relatos atribuídos a autoridades das primeiras gerações. Atribui-se-lhe a transmissão oral de mais de 100 mil hádices e a reunião de aproximadamente 20 mil em suas obras. Sua confiabilidade como tradicionalista foi reconhecida por estudiosos como Ibne Sade, Iáia ibne Maine, Anaçai, e Adaabi, embora alguns críticos tenham observado que ocasionalmente transmitia tradições provenientes de narradores considerados fracos. Amade ibne Hambal descreveu-o como um estudioso piedoso, jurista e de grande conhecimento, enquanto Abu Zura Arrazi afirmou ter examinado cerca de 30 mil hádices transmitidos por Ibne Uabe sem encontrar entre eles qualquer tradição fabricada e sequer uma que considerasse munkar. Adaabi, por sua vez, qualificou-o como autoridade, hafiz e mujtahid. Sua importância foi particularmente duradoura no desenvolvimento do maliquismo. O conhecimento que possuía das opiniões de Maleque e das tradições nas quais estas se fundamentavam fez dele uma das principais autoridades da primeira geração de discípulos do jurista medinense. Ao mesmo tempo, sua atividade não se restringiu à transmissão das opiniões de Maleque, pois sua extensa formação no hádice e seu contato com numerosos estudiosos permitiram-lhe reunir um repertório próprio de tradições e opiniões jurídicas. Segundo uma informação transmitida por Iade, Ibne Uabe teria composto trinta obras a partir dos ensinamentos de Maleque, e o próprio Iade ainda conhecia os títulos de algumas delas.
Obras
Ibne Uabe produziu numerosas obras relacionadas ao hádice, jurisprudência, exegese, história e outros campos das ciências islâmicas. A principal obra parcialmente preservada é o al-Jāmiʿ fī al-ḥadīth, reunião de tradições sobre diversos assuntos. Uma cópia fragmentária preservada no Cairo, contendo apenas algumas partes da obra, foi editada com comentários por J. David-Weill entre 1939 e 1948. O manuscrito utilizado nessa edição é um códice em papiro de cerca de cem páginas, datado de 276 A.H. (889), que contém, entre outros materiais, o Livro das Genealogias, o Livro do Silêncio e o Livro do Selo, além de tradições relativas à Batalha de Hunaine e uma oração atribuída a Abedalá ibne Abas. David-Weill observou que praticamente nada desse material figurava nas diferentes recensões do Almuwatta de Maleque ou na Mudawwana de Sanune. Outros fragmentos do al-Jāmiʿ fī al-ḥadīth foram identificados posteriormente. Parte da obra encontra-se na Biblioteca Chester Beatty, enquanto um manuscrito intitulado al-Musnad, conservado em Damasco, também parece constituir uma seção da mesma compilação. Uma edição posterior do al-Jāmiʿ, publicada em dois volumes em 1996, contém 717 tradições.
Outra obra de Ibne Uabe é o Tafsīr al-Qurʾān, no qual reuniu tradições relacionadas à exegese do Alcorão, organizadas de maneira semelhante a um musnad. Pequenas partes preservadas em Cairuão foram posteriormente editadas por Miklos Muranyi, incluindo separadamente material relativo às ciências corânicas e à exegese propriamente dita. Também sobreviveu o Kitāb al-Qadar wa-mā warada fī dhālika min al-āthār, compilação formada por vinte hádices e seis relatos relativos à questão do destino, reunidos como refutação ao cadarismo. Entre outras obras atribuídas a Ibne Uabe pelas fontes estão o al-Muwaṭṭaʾ al-kabīr, o al-Muwaṭṭaʾ al-ṣaghīr, o Kitāb al-Janāʾiz, o Kitāb Aḥwāl al-qiyāma, o Kitāb al-Bayʿa, o Kitāb al-Manāsik, o Kitāb al-Maghāzī, o Kitāb al-Ridda, o Tafsīr Gharīb al-Muwaṭṭaʾ e o al-Mujālasāt ʿan Mālik. A produção e as transmissões de Ibne Uabe também foram incorporadas a obras de seus discípulos e de estudiosos posteriores. reuniu no al-Mukhtaṣar al-kabīr fī al-fiqh cerca de 18 mil questões transmitidas de Maleque por Ibne Uabe e outros discípulos, enquanto Alharite ibne Misquine compôs uma obra dedicada às opiniões nas quais Ibne Uabe, e Ibne Alcácime estavam de acordo. escreveu ainda o Akhbār Ibn Wahb, dedicado às tradições relacionadas a Ibne Uabe.
Bibliografia
Categoria:Coraixitas Categoria:Naturais do Cairo Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida