Xuba ibne Alhajaje (), cujo nome completo era Abu Bistame Xuba ibne Alhajaje ibne Aluarde Alazedi Albáceri (; 701/6 – ), foi um tradicionalista muçulmano, considerado uma das principais autoridades do hádice de sua geração. Maula dos azeditas, nasceu em Uacite e estabeleceu-se posteriormente em Baçorá, onde se tornou uma figura central da tradição do hádice. Estudou com centenas de mestres e teve entre os estudiosos que transmitiram por sua autoridade Sufiane Atauri, Abederramão ibne Mádi, Uaqui ibne Aljarrá e Abedalá ibne Almubaraque.
Xuba destacou-se particularmente por sua contribuição ao desenvolvimento da crítica dos transmissores, sendo considerado um dos pioneiros do jarḥ wa-taʿdīl. Investigava a confiabilidade dos narradores e a continuidade das cadeias de transmissão, adotando critérios rigorosos quanto à audição direta dos hádices, ao tadlīs e à transmissão por ʿanʿana e ijāza. Sua autoridade nos diferentes ramos do estudo do hádice valeu-lhe a designação amīr al-muʾminīn fī al-ḥadīth ("comandante dos crentes no hádice"), e sua atuação exerceu influência duradoura sobre o desenvolvimento dos métodos de avaliação das tradições e de seus transmissores.
Conhecido também pelo ascetismo e pela independência em relação aos governantes, Xuba levou uma vida austera e foi lembrado por sua generosidade com os pobres. São-lhe atribuídas diversas obras de hádice e exegese do Alcorão, mas nenhuma chegou integralmente aos tempos modernos, segundo a tradição porque determinou que seus livros fossem destruídos após sua morte. Uma parcela considerável de suas transmissões, contudo, foi preservada por seus discípulos e incorporada às grandes coleções posteriores de hádice.
Vida
Xuba ibne Alhajaje nasceu em Uacite entre 82 e 87 A.H. (701–706). Seu nome completo era Abu Bistame Xuba ibne Alhajaje ibne Aluarde Alazedi Albáceri. Era maula dos azeditas e passou a juventude em Uacite. Antes de 110 A.H. (728), estabeleceu-se em Baçorá, onde estudou fiqh com Haçane Albáceri. Segundo as fontes, sua família demonstrava interesse pelo estudo do hádice, e seus irmãos Bexar e Hamade custearam sua manutenção para que pudesse dedicar-se à formação erudita. Na juventude, Xuba interessou-se particularmente pela poesia e estudou durante longo período com . Posteriormente, sob a influência de , voltou-se para o estudo do hádice. Teve contato com numerosos estudiosos da geração dos tabis, entre eles Haçane Albáceri, Ibne Sirine, , e Anre ibne Dinar. As fontes atribuem-lhe mais de quatrocentos mestres, dos quais mais de 130 seriam provenientes de Cufa, embora as relações preservadas não sejam consideradas completas. Em busca de tradições, viajou ainda para Cufa, Meca, Medina, Baguedade e Almadaim.
Xuba tornou-se uma das principais autoridades do hádice de sua geração e teve numerosos discípulos. Entre os estudiosos que transmitiram por sua autoridade estiveram Alamaxe, Aiube Açaquetiani, Ibne Isaque, Sufiane Atauri, Abederramão ibne Mádi, Uaqui ibne Aljarrá, Abedalá ibne Almubaraque, Iáia ibne Saíde Alcatane, , e . Alguns de seus próprios mestres também transmitiram tradições por sua autoridade. Albucari, nascido depois da morte de Xuba, recebeu grande quantidade de material transmitido por ele através de intermediários, sobretudo Adão ibne Abi Ias. Xuba era conhecido ainda pelo ascetismo e pela generosidade com os pobres. Levava uma vida austera, usava roupas simples e recusava os favores oferecidos pelos governantes. Morreu em Baçorá em 160 A.H. (776).
Hádice e crítica dos transmissores
A importância de Xuba para o desenvolvimento do estudo do hádice esteve relacionada não apenas à quantidade de tradições que transmitiu, centenas das quais foram incorporadas às seis principais coleções canônicas, mas também à sua atuação na organização sistemática do material tradicional e na avaliação dos transmissores. É considerado um dos primeiros estudiosos a promover em Baçorá a classificação sistemática dos hádices e a reunir e avaliar informações relativas aos transmissores. Seu conhecimento dos diferentes ramos da disciplina levou-o a receber a designação amīr al-muʾminīn fī al-ḥadīth ("comandante dos crentes no hádice"). Axafii chegou a afirmar que, sem Xuba, o hádice não teria se tornado conhecido no Iraque. Xuba adquiriu especial importância no desenvolvimento do jarḥ wa-taʿdīl, a crítica destinada a estabelecer a confiabilidade dos transmissores. Juynboll o apresenta como o primeiro grande expoente dessa disciplina, que posteriormente alcançaria elevado desenvolvimento entre os estudiosos do hádice. Xuba investigava cuidadosamente a reputação daqueles de quem recebia tradições e tornou-se conhecido por seus julgamentos sobre transmissores fracos ou abandonados, exercendo influência particularmente importante sobre os estudiosos iraquianos. Sua própria seleção era considerada tão rigorosa que se dizia não ser necessário investigar novamente a confiabilidade daqueles dos quais aceitava transmitir.
Seu rigor estendia-se à autenticidade das próprias cadeias de transmissão. Considerava o tadlīs uma falta grave e procurava determinar se os transmissores haviam efetivamente ouvido as tradições das autoridades às quais as atribuíam. Não aceitava como necessariamente contínuos os hádices transmitidos mediante ʿanʿana quando não estava estabelecido o contato entre os transmissores, rejeitava a transmissão por ijāza e não aceitava relatos cuja audição por seus mestres não pudesse confirmar. Também recusava transmitir de pessoas que não considerasse confiáveis ou cuja conduta religiosa julgasse inadequada, abandonando uma tradição diante de qualquer dúvida significativa acerca de sua transmissão. A cautela de Xuba refletia-se igualmente em seu método de aprendizagem. Segundo as fontes, em uma sessão procurava aprender no máximo dois hádices, ouvindo-os repetidamente de seu mestre até memorizá-los antes de passar a outros. Embora tenha ficado conhecido pela preferência pela memorização e haja relatos segundo os quais desaprovava que seus discípulos escrevessem as tradições, também ditava hádices, consultava livros de outros estudiosos, recebia tradições por correspondência e possuía uma biblioteca pessoal. Xuba era igualmente severo com a fabricação e a transmissão irresponsável de tradições. Criticava pessoas que transmitiam hádices sem possuir a preparação que considerava necessária e ameaçava denunciar aos governantes aqueles que fabricassem tradições. Sua hostilidade estendia-se aos contadores de histórias, os quṣṣāṣ, que censurava pela utilização pouco rigorosa de relatos religiosos. A tradição posterior preservou numerosas anedotas destinadas a ilustrar sua preocupação com a autenticidade do material transmitido.
Posições religiosas e ascetismo
As fontes afirmam que, durante os primeiros anos de sua atividade no hádice, Xuba teria adotado algumas opiniões associadas aos rafiditas, mas posteriormente as abandonou após discussões com tradicionalistas de Baçorá. Essa fase inicial é apontada como possível razão para sua inclusão em algumas obras biográficas xiitas, embora sua trajetória posterior estivesse vinculada ao ambiente tradicionalista sunita de Baçorá. Sua atividade erudita era acompanhada por uma concepção ascética da vida. Xuba era descrito como indiferente aos bens materiais, generoso com os necessitados e relutante em aproximar-se dos governantes. Sua reputação de austeridade tornou-se parte importante de sua imagem nas fontes biográficas, juntamente com a dedicação ao hádice e o rigor na seleção dos transmissores.
Obras
As fontes atribuem a Xuba diversas obras, entre elas o al-Gharāʾib fī al-ḥadīth, o Kitāb Shuʿba, o Muṣannaf Shuʿba e o Tafsīr al-Qurʾān al-ʿaẓīm. Apesar de ser mencionado entre os primeiros estudiosos de Baçorá a organizar sistematicamente coleções de hádices, nenhuma de suas obras chegou integralmente aos tempos modernos. Segundo a tradição, Xuba determinou que seus livros fossem destruídos depois de sua morte para impedir que caíssem nas mãos de pessoas que não considerava qualificadas, e seu filho Sade teria cumprido essa determinação. Uma parcela considerável de suas tradições, contudo, foi preservada por seus numerosos discípulos e incorporada às grandes coleções posteriores. Sua atividade também originou diversas obras especificamente dedicadas a suas transmissões e à sua biografia. Amade ibne Hambal compilou o Kitāb Ḥadīth Shuʿba, enquanto Muslim ibne Alhajaje produziu trabalhos sobre seus mestres e sobre os transmissores que receberam tradições por sua autoridade. Também foram atribuídas compilações de suas tradições a Anaçai, Atabarani, , Ibne Manda e outros estudiosos.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Uacite Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Azeditas